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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Confissões de um coração saudoso...

Hoje é o seu aniversário. Entrastes oficialmente no clube das balzaquianas. Eu estou a caminho. Já, já chego lá.
É inevitável não pensar, não sentir... A saudade se impõe. E me pego recordando o 1° dia que te conheci lá na igreja. Na nossa. Eu sentadinha no banco das crianças, aguardando mamãe iniciar a aula da EBD, quando vi você chegar com seus irmãos. Crianças. Curiosos. Você de saia de pregas com um pompom na cabeça prendendo o penteado infantil.
A distância dos anos faz com que a minha mente esteja povoada por lacunas. Não me lembro ao certo quando a amizade se estabeleceu entre nós. Só sei que foi rápida porque recordo que a identificação foi imediata. Talvez me faltasse companhia na minha idade, minhas irmãs eram mais novas do que eu, e, tu sabes, né? Sempre tive esse jeito nariz em pé, menina metida a moça, madura demais para a idade. Precisava de companhia a altura. É, acho que foi isso. Mas, outras vezes, penso que foi um daqueles encontros especiais que a gente tem na vida que são proporcionados única e exclusivamente por Ele.
Tenho guardada em minha caixinha de recordações todos os cartões que me destes - de aniversário, natal... - engraçado como as pessoas perderam o hábito de trocarem cartas. Acho tão mais pessoal, sabe? Mais próximo. Eu guardei tudo. E quando a saudade aperta, como agora, eu corro lá e leio tudo de novo.
São tantas as recordações. As brincadeiras - da Turma da Pesada, você era a Larke, minha irmã a Bianca e eu era a Blazer (mas, na verdade eu sempre quis ser a Larke); os pedidos quase desesperados pra sua mãe de "por favor, deixa ela dormir lá em casa"; dos almoços na sua casa; das vezes que ficávamos penduradas na goiabeira espiando nossos primos namorarem. E as brigas com os meninos? Da gente cantando as canções românticas da Mara Maravilha (lembra?). Ahhh, são tantas lembranças.
E as descobertas? As primeiras paqueras, as confidências infantis. Até compartilhamos o mesmo namorado - O Sacana. E o prazer que tínhamos em caminhar para a nossa Igreja? Dos papéis nas peças de Natal, Dia das Mães ("andei por todos os jardins..."), etc. Da sede que tínhamos em conhecer a Palavra. Lembras que íamos todos os dias? Inclusive quando não tinha nada pra fazer por lá? Só jogar conversa fora. Tão bom.
E a vida era mais leve, mais divertida, mais bucólica. Até que a notícia chegou. A mudança. Em breve. Teus pais foram prepará-la e você ficou na minha casa. Um mês. A sensação que tenho, é que esse mês foi o mais intenso de todos que vivi. Os nossos amigos aqui em casa, que ficava sempre cheia. Meu primeiro namorado, você vivendo uma grande paixão. E o desespero de todos em aproveitar cada minuto que tínhamos com você e com seus irmãos.
Tive tanta raiva dos seus pais. Hoje eu sei que foi bobagem, mas, naquele momento eu precisava direcioná-la para alguém. Eles estavam levando embora minha melhor amiga. Eu tive tanto medo de ser esquecida. Da nossa amizade se perder no tempo, de não ter tido importância. Por isso que, sem nenhuma modéstia, considero o presente que minhas irmãs e eu te demos, fabuloso: "um copo inox com nosso nome gravado para toda vez que beberes água, não se esqueças da gente".
A sua partida foi o meu primeiro luto. Tantos outros viriam a seguir... Foi doído. Ainda é. Aconteceu tanta coisa comigo na adolescência e você não estava aqui para eu te contar. A questão é, que por mais que eu tentasse investir em outras amizades, que eu compartilhasse segredos com velhos e novos amigos, nunca era a mesma coisa. Eu nunca confiei o suficiente, simplesmente porque não era você. Mas, eu não sou egoísta. E nem quero, pois nem posso, mensurar sofrimento. Pois sei, que o que passei nem se compara com as dificuldades, tristeza e solidão que passastes numa cidade tão grande e distante. Se eu fiquei privada da minha melhor amiga, você ficou privada de todos os seus amigos. E só de pensar no que tu passou meu coração parte no meio.
Tu sabes o quanto essa separação ressoou profundo em nós, em todos nós. Tu sabes as outras perdas que tive naquele período e o sofrimento molda caráter, tanto para o bem, quanto para o mal. E nós mudamos, amadurecemos, crescemos. E aqui chegamos.
É seu aniversário e eu queria muito está aí. Mesmo que fosse pra gente passar o dia inteiro assistindo televisão, navegar na internet, ou então compartilhar silêncios cúmplices. Eu queria muito ter sido mais presente, recentemente, no momento em que tanto precisou. Me culpo por isso.
Hoje relendo as suas cartas, me peguei refletindo num trecho o qual você diz: "Acho que felicidade é isso: momentos bons que a gente vive e que só duram o tempo suficiente para se tornarem inesquecíveis. E a gente só tem noção que era felicidade quando o momento acaba, então se inicia uma nova busca por esses momentos". Sabes de uma coisa? A despeito de tudo que passei, das lágrimas, que apesar de não mais constantes, ainda teimam rolar pelo meu rosto, da dor excruciante da saudade, do tempo da separação ser maior daquele que estivemos juntas, eu choraria tudo de novo, eu sofreria tudo de novo, eu faria tudo de novo. Por que nada se compara a felicidade de se ter um amigo, mesmo que distante. E eu sou tão feliz, tão feliz. E tenho um coração grato a Ele por ter proporcionado esse encontro.
Não sei o que está reservado para nós. Mas, é com um sorriso nostálgico que recordo de um versinho, que um amigo em comum gostava de nos dizer: "Amigos vem e vão, mas, sempre deixam marcas no coração". Só eu sei o quanto isso é verdade.